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Terra Boa!

Atualizado: 18 de Mai de 2019


Sempre me surpreendo quando percebo o quanto é possível aprender durante o trabalho conjunto. Aliás, o trabalhar juntos nos enlaça, nos traz para perto. Trabalhar juntos nos ensina. Lembro-me ainda muito bem quando o Junior, menino do meu coração, queria conversar, colocar os pensamentos e emoções para fora. Era só começarmos a preparar a massa de um pão, que ele começava a se expressar, colocar para fora, conversar. De quantas lutas e guerras ele se livrava enquanto fazíamos pão!


Com Geraldo, funcionava muito melhor, quando começávamos a varrer o quintal. Com a vassoura na mão ele se tornava muito falador um verdadeiro tagarela, processo tão importante para sua saúde emocional. Gerson, por sua vez, se expressava enquanto estendíamos roupa no varal ou cuidamos do nosso cachorro e dos nossos patos.


E hoje, o trabalho no Jardim Gramacho não foi diferente no meio de uma atividade de jardinagem. Tive mais um dia plantando junto com as crianças. Um dia ensolarado e lindo com poucas nuvens e céu azul. Eu entendo bem o contexto em que essas crianças estão inseridas. Compreendo seus desafios, seus traumas, medos, as incertezas e as mágoas que doem profundamente nos seus corações. Entendo os seus sentimentos reais de abandono, de negligência, da falta de esperança e perspectiva. Sim, entendo o seu choro, desespero, sua ansiedade, sua insatisfação. Entendo seu sofrimento, entendo que elas se sentem injustiçadas, desprotegidas e desrespeitadas. Suas dores são reais e suas demandas são justas e legítimas, baseadas em fatos reais. Enquanto trabalhávamos na horta juntos hoje, não foi diferente. As mudas que plantamos estavam em saquinhos pretos, cheio de barro duro. As mudas estavam lindas, verdes, cheias de raízes, mas sem dúvida alguma, não sobreviveriam por mais alguns dias naquele barro duro e argiloso dos saquinhos.


Olhando para aquelas crianças, conversando com elas e participando de suas histórias de vida, ouvindo ja centenas de outras crianças que também vivem em extrema pobreza e vulnerabilidade têm histórias de vida parecidas. São lindas, inteligentíssimas, habilidosas, criativas, cheias de vontade de viver, de explorar, de conhecer. Têm infinitos talentos e habilidades, inteligências variadas, e de braços abertos, estão prontas para desafiar, colaborar e enfrentar um mundo humano complexo. São corajosas e em nada diferente dos meus filhos. As suas descobertas me encantam e a cada conquista de cada uma, me realizo. Mas, o cenário em que estão inseridas é de barro duro em um mundo argiloso. Terra que não nutre, ao invés impede o crescimento e sufoca.

As crianças conseguiram livrar as mudas do barro seco daqueles sacos pretos. Puderam soltar suas raízes e plantar em terra boa as suas mudas. Cuidaram bem das frágeis raízes, prepararam com cuidado e afeto o canteiro e se encantaram com a beleza das flores e do plantio. Teremos muitos dias de trabalho juntos ainda, cuidaremos juntos do Jardim que já está lindo e vai ficar ainda mais.


Saí de lá entendendo ainda melhor aquilo que me compete. O nosso trabalho de cuidar daquelas crianças, não do futuro, mas de seu presente. Elas não são o nosso futuro, são nosso presente. A responsabilidade é nossa de ajudá-las a crescer, a desabrochar, desenvolver competências, potencializar suas habilidades. Abrir caminhos para que tenham acesso às oportunidades, para que os seus direitos sejam implementados e respeitados, para que as suas vozes sejam ouvidas. É responsabilidade nossa.


Como o barro duro sufoca as mudas, a exposição à violência e a falta de acesso à educação com qualidade sufoca o crescimento e o desenvolvimento saudável dessas crianças. A falta de saneamento básico, a falta de acesso a água potável, a falta de uma alimentação adequada, a falta de acesso à saúde básica impedem que tenham uma vida minimamente estável. Atrapalham seu crescimento físico e maltratam seus corpos.


A terra argilosa representa a agressão e o desrespeito que sofrem por toda sociedade. Representa a falta de acesso às oportunidades tanto no micro cenário através dos responsáveis locais, famílias e comunidade. Também no macro cenário pelo governo, Igreja, escola, e todos aqueles que por alguma razão possuam o poder de decidir sobre suas vidas sem sequer entender ou assumir suas responsabilidades diárias junto a cada uma elas.


Terra boa há e como há. Da mesma forma que terra boa e cuidado não faltam para com nossos filhos, não pode faltar para elas também. Terra boa e escola com qualidade, e água limpa. Terra boa da qual nascem frutas, proteínas e alimentos que nutrem de acordo com a necessidade de cada uma. Terra boa na forma de trabalho digno para as suas famílias. Terra boa significa ter a liberdade de escolha. Terra boa é poder ler livros que encantam e ajudam a construir sua identidade social, que as leva a entender que todas têm a capacidade de criar e que têm uma importante contribuição ao mundo que as desconhece.


Terra boa é promover plataformas que desenvolvam o senso de responsabilidade e não de culpa, construindo possibilidades para que as crianças se tornem resilientes para encarar esse mundo humano complexo onde suas identidades são forjadas. Terra boa não enfatiza culpa ou inferioridade, mas a capacidade de comparar-se com outros sem ser afetado na sua própria identidade. Terra boa e amor concreto que se expressa através de um cuidado holístico. Terra boa é amizade e estar junto. Terra boa é acreditar e incentivar. Terra boa é ir além. Ser terra boa, cuidando delas, investindo em suas vidas e das suas famílias.


Vejo Um Jardim nesse Lugar…


[English Version]


I am always surprised when I realize how much it is possible to learn while working together. In fact, working together brings us together, brings us closer. Working together teaches us. I still remember very well when Junior, the boy of my heart, wanted to talk, to put his thoughts and emotions out. It was only to begin to prepare the mass of a loaf, that he began to express himself, to put out, to talk. How many fights and wars he got rid of while making bread!


With Geraldo, it worked so much better when we started sweeping the yard. With the broom in his hand he became a true chatterbox, a process so important to his emotional health. Gerson, in turn, expressed himself as we spread clothes on the clothesline or take care of our dog and our ducks.


And today, work at Jardim Gramacho was no different in the middle of a gardening activity. I had another day planting with the children. A sunny and beautiful day with few clouds and blue sky. I fully understand the context in which these children are inserted. I understand their challenges, traumas, fears, the uncertainties and sorrows that hurt deeply in their hearts. I understand their real feelings of abandonment, neglect, lack of hope and perspective. Yes, I understand their crying, despair, anxiety, dissatisfaction. I understand their suffering, I understand that they feel wronged, unprotected and disrespected. Their pains are real and their demands are fair and legitimate, based on real facts. While working in the garden together today, it was no different. The seedlings we planted were in black sacks, filled with hard clay. The seedlings were beautiful, green, full of roots, but without a doubt, they would not survive for a few more days in that hard clay.


Looking at those children, talking to them and participating in their life, and already listening to hundreds of other children who also live in extreme poverty and vulnerability they have similar life histories. They are beautiful, intelligent, skilled, creative, full of desire to live, to explore, to know. They have endless talents and abilities, varied intelligences, and with open arms, they are ready to challenge, collaborate and face a complex human world. They are brave and nothing different from my children. Their discoveries enchant me and with each conquest, I realize myself. But, the setting in which they are inserted is of hard clay, heavy soil. Soil that does not nourish, instead hinders growth and suffocates.


The children managed to get rid of the dry mud from those black bags. They could loose their roots and plant their seedlings on good soil. They took good care of the fragile roots, prepared with care and affection the flower bed and were enchanted with the beauty of the flowers and the planting. We will have many days of work together, we will take care of the garden that is already beautiful and will stay even longer.


I got out of there understanding even better what is my job. Our job of taking care of those children, not of the future, but of their present. They are not our future, they are our present. It is our responsibility to help them grow, to blossom, to develop skills, and to empower their skills. Open paths so that they have access to the opportunities, so that their rights are implemented and respected, so that their voices are heard. It's our responsibility.


As hard clay suffocates the seedlings, exposure to violence and lack of access to quality education stifles the healthy growth and development of these children. Lack of basic sanitation, lack of access to safe drinking water, lack of adequate food, lack of access to basic health prevent them from having a minimally stable life. They hinder their physical growth and mistreat their bodies.


The loamy soil represents the aggression and disrespect they suffer from all society. It represents the lack of access to opportunities both in the micro scenario through local leaders, families and community. Also in the macro scenario by government, church, school, and all those who for some reason have the power to decide on their lives without even understanding or assuming their daily responsibilities next to each one of them.


There is good soil. Just as good soil and care are not lacking for our children, we can not miss them either. Good soil is school with quality, and clean water. Good soil in form of fruits, proteins and food that nourish according to the need of each one. Good soil in the form of decent work for their families. Good soil means freedom of choice. Good soil means to have the possibility to read books that enchant and help build their social identity, which leads them to understand that all have the capacity to create and have an important contribution to the world that does not know them.


Good land promote platforms that develop a sense of responsibility, not guilt, building possibilities for children to become resilient to face the complex human world where their identities are forged. Good soil does not emphasize guilt or inferiority, but the ability to compare yourself with others without being affected in your own identity. Good soil is concrete love that expresses itself through holistic care. Good soil is friendship and being together. Good soil is believing and encouraging. Good soil is to go beyond. Being good soil means to take care of them, investing in their lives and their families.


I see a garden in this place …

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