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Parentalidade e masculinidade: que o silêncio emocional acabe



No calendário brasileiro comemoramos o Dia dos Pais no segundo domingo de agosto e isso fez a HAJA relembrar a frase da nossa CEO, a Nádia Barbazza. Olhando para as crianças que participam dos projetos em Quatro Rodas, ela disse preocupada: “As crianças superam quase tudo na vida, mas tem uma coisa que eu vejo que elas não superam que é o abandono dos pais. Isso é uma ferida que nunca esquecem”.


Infelizmente, essa é uma realidade de 5,5 milhões de vidas no país dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com base no Censo Escolar de 2011 e estatísticas, segundo revista Exame, mostram que o Estado do Rio lidera o ranking, com 677.676 crianças sem filiação completa, logo após está o Estado de São Paulo, com 663.375 crianças com pai desconhecido. Roraima é o último estado deste triste ranking, com 19.203 crianças que só têm o nome da mãe no registro de nascimento.


Diante da magnitude do problema, podemos nos perguntar o que fariam mais pais assumirem seu papel não só diante da lei, mas na participação diária do crescimento do seu filho. Pensando nesse assunto o Instituto PDH — Instituto de Pesquisa & Desenvolvimento em Florescimento Humano com incentivo do blog Papo de Homem realizou uma pesquisa nacional com mais de 40 mil pessoas (27.202 homens e 15.451 mulheres) de todas as regiões brasileiras. E os resultados foram transformados em um relatório e um documentário chamado O silêncio dos homens, esse logo abaixo.



O título do documentário traz em si uma grande questão e, talvez, a chave para o início de uma transformação. A pesquisa chega à conclusão da necessidade da educação emocional voltada para o homem:


“O universo da masculinidade é um universo do silêncio. (...) Tem uma construção histórica de silenciamento masculino. Esse silenciamento masculino trata-se da norma, portanto não precisa ser falado, isso é dado." — Paula Pinto, antropóloga (relatório Silêncio dos Homens)

Apesar do homem - sobretudo o branco, heterossexual, classe alta -, ter um lugar de fala ativa na vida cotidiana, que acaba por oprimir e violentar o direito das mulheres, observou-se que essa fala não contempla seus reais problemas, suas dores, seus medos. Ou seja, “os homens sofrem, mas sofrem calados e sozinhos”, e a pesquisa buscou entender mais sobre o problema apresentando dados importantes:


  • 6 em cada 10 homens concordam que foram ensinados a NÃO expressar suas emoções

  • 7 em cada 10 homens concordam que foram ensinados, durante a infância e adolescência, a NÃO demonstrarem fragilidade

  • 2 em cada 10 homens tiveram exemplos práticos e boas conversas frequentes sobre como lidar com suas emoções e expressá-las de maneira saudável, durante a infância e adolescência

  • 2 em cada 10 homens tiveram exemplos práticos e boas conversas sobre como assumir seus medos e pedir ajuda, durante a infância e adolescência


Segundo relatório: “Ensinamos os meninos a não expressarem emoções, fragilidades, medos ou pedir ajuda. E depois pedimos a eles, quando adultos, que sejam sensíveis, empáticos e se transformem. Isso cria uma sinuca.”

Os dados da pesquisa revelam que o sofrimento não é pequeno:

  • 17% dos homens lida com algum nível de dependência alcoólica

  • Os homens são também a maioria dos viciados nas demais drogas

  • 83% das mortes por homicídios e acidentes no Brasil têm homens como vítimas — isso significa mais de 110.000 mortes por ano

  • Vivem 7 anos a menos que as mulheres, no Brasil

  • Homens se suicidam quase 4 vezes mais

  • 1 em cada 4 homens afirma estar viciado em pornografia

  • São 82% dos estimados 110 mil moradores de rua do país

  • 1 em cada 4 homens de até 24 anos afirma se sentir solitário sempre

  • 6 em cada 10 homens afirmam enfrentar hoje um distúrbio emocional

  • Apenas 3 em cada 10 homens possuem o hábito de conversar sobre os seus maiores medos e dúvidas com os amigos

Por esses números, podemos nos questionar se os homens possuem recursos suficientes para se assumirem como pais ou se a sociedade como um todo tem responsabilidade sobre isso. Podemos nos questionar, também, como a pesquisa aponta se

"É possível dialogar sobre as dores dos homens, com responsabilidade e sem roubar espaço das mulheres?".

O que já se pode entender é que o inimigo não é o homem mas a cultura da masculinidade, é o machismo, e por incrível que pareça, apesar das mulheres serem sem dúvida as que mais sofrem com o peso disso, inclusive com a própria vida, o homem enfrenta inúmeros efeitos colaterais, como explica o psicólogo Leonardo Piamonte:


“A gente se constrói como menino nessa sociedade que tende muito a dar valor às virtudes percebidas como masculinas. A gente tem que ser sempre forte, sempre bem sucedido, tem que ser sempre comedor, foda, vencedor, conquistador. Tem que viver pra vencer, pra conquistar e isso vai criando uma casca muito dura.”

A desconstrução dessa masculinidade tóxica e violenta passa a ser uma aliada da luta contra o machismo, contra a violência entre os homens e, principalmente, entre as mulheres e crianças, a favor da vida e quem sabe um facilitador da melhor convivência e da tomada de responsabilidade do homem para os papéis que deve assumir.


Porém, sabemos que o caminho não é fácil. Dentre os trabalhos que a HAJA realiza o diálogo aberto e próximo com os homens jovens e adultos da comunidade estão entre os mais desafiadores. Quando são chamados a trabalharem em projetos práticos, por exemplo, é possível contar com eles, mas quando o trabalho é sobre diálogo, sobre abertura, cuidado e saúde emocional as barreiras são grandes.


Por isso, nesse mês gostaríamos de ampliar as discussões sobre paternidade e masculinidade e chamar todos para o diálogo e para a ação sobre esse assunto. Enquanto isso, nossa principal atuação, é através das crianças, para que entendam a importância que os sentimentos delas possuem, para que possam falar e desejar, para que a família diminua a violência com elas dentro de casa e possam ter acesso à educação e à saúde. Acreditamos que com isso contribuímos com novas gerações de homens responsáveis e futuros pais ativos.



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