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Planejamento familiar não é responsabilidade apenas da mulher




Dentre os trabalhos que a HAJA considera essencial, encontra-se o contato e acolhimento das mães que frequentam nossos projetos. Em ambientes de maior vulnerabilidade social é mais frequente ver mães tendo que arcar solitariamente com a criação de filhos. Poucos são os pais presentes e participativos, sendo muitos os desafios enfrentados por elas e pelas crianças.


Infelizmente, no cerne deste problema está a gravidez não planejada e muitas vezes precoce. Para se ter uma noção do complexo problema, a ONU divulgou o impacto que, somente a pandemia causará no planejamento da maternidade. Ela divulgou a estimativa que 47 milhões de mulheres em 114 países de baixa e média renda, incluindo o Brasil, não consigam ter acesso a contraceptivos modernos, o que poderá derivar em 7 milhões de gestações não planejadas.


"Isso acontece porque a situação atual compromete sobretudo o acesso a métodos contraceptivos, dificultando o planejamento familiar e a capacidade de assistência do próprio sistema de saúde, que tende a ficar sobrecarregado com a epidemia. Além disso, o medo de contrair o vírus faz com que muitas mulheres optem por não ir ao consultório médico". (Dra. Thais Ushikusa, ginecologista)

Leia mais em: https://saude.abril.com.br/blog/com-a-palavra/precisamos-lidar-com-a-gravidez-nao-planejada-em-tempos-de-coronavirus/


Além disso, o índice de gravidez entre adolescentes de 15 a 19 anos de idade é de 53 a cada mil brasileiras, indicador maior que a média mundial que é de 41, segundo o Fundo de População das Nações Unidas (Unfpa). O fundo também aponta que a gravidez precoce acontece com maior frequência entre as meninas em situação de maior vulnerabilidade social, com menores escolaridade, renda e acesso a serviços públicos.


Logo, quando começamos a conversar com as mães dos nossos projetos sobre seus sonhos, muitas dizem que é fazer laqueadura (ou ligadura tubária, método cirúrgico de esterilização feminina). Mas a verdade é que a maioria dessas meninas e mulheres não tiveram seu direito de acesso pleno ao planejamento familiar, mais um direito que deveria ser assegurado pelo Estado através da lei nº9.263, de 12 de janeiro de 1996 como vemos no quadro abaixo:

Porém, cabe ainda ressaltar, o quanto a fertilidade recaí sobre a questão de gênero, do machismo e a perpetuação da desigualdade feminina, uma vez, que se dá a entender a todo momento, inclusive, nas políticas públicas que é a mulher a única ou a maior responsável pela gravidez. Não atoa a maioria dos métodos contraceptivos ainda são prejudiciais à saúde, apesar de ser uma conquista feminina, e exclusivos para elas. Isso leva muitas mulheres a mutilarem de forma irreversível seus corpos como no caso da esterilização feminina, pelo mito da vasectomia interferir na potência masculina, como aponta as pesquisadoras Clarice Marcolino e Elizabeth Galastro;


"(...) de um lado, a não-colaboração do companheiro no que se refere ao uso do preservativo e à vasectomia e, de outro, a aceitação e incentivo para que suas mulheres mutilem seus corpos para livrarem-se de uma problemática que, apesar de envolver ambos, parece ser encarada por eles como sendo de âmbito exclusivo das mulheres (...)".

A violência sexual é ainda outro fator importante de se considerar no enfrentamento à gravidez não planejada, pois é uma das consequências das vítimas. Nesse tipo de violência silenciosa que acontece muitas vezes dentro dos lares, a mulher se torna um corpo apropriado por um criminoso. É uma violência extrema:


A violência sexual é a mais cruel forma de violência depois do homicídio, porque é a apropriação do corpo da mulher – isto é, alguém está se apropriando e violentando o que de mais íntimo lhe pertence. Muitas vezes, a mulher que sofre esta violência tem vergonha, medo, tem profunda dificuldade de falar, denunciar, pedir ajuda.” (Aparecida Gonçalves, ex-secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da Secretaria de Políticas para as Mulheres)

Como pode-se ver o planejamento familiar não é uma questão exclusiva da mulher, ela é responsabilidade também do homem, do Estado na área da saúde, na área da segurança a mulher, e precisa de um intenso trabalho de educação e de enfrentamento da desigualdade de gênero. Isso é essencial para a autonomia da mulher diante do seu corpo, das suas escolhas, da sua vida, com a possibilidade, por exemplo, de ter uma carreira, já que a maioria não tem onde deixar seus filhos para trabalhar.


Por tudo isso, a HAJA pretende seguir no apoio e fortalecimento dessa autonomia para que as mães que frequentam os projetos possam criar redes e ter acesso a seus direitos. Venha com a gente fazer parte dessa conquista!


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