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A pobreza extrema pela voz de quem vive




De acordo com o Diário do Rio, através de dados de abril de 2021 analisados pelo Instituto Rio21 do Cadastro Único, apenas no estado do Rio de Janeiro, 2,5 milhões de pessoas vivem em situação de extrema pobreza e meio milhão em situação de pobreza.


Considera-se extrema pobreza, segundo o Banco Mundial, viver com menos de 1 por dia, e pobreza moderada é viver com até 2 dólares por dia.


Segundo análises históricas da pobreza no Brasil:


“a taxa média anual de crescimento da população em situação de extrema pobreza atingiu seu auge em 2019. O aumento foi de 6,8% em relação ao ano anterior. Em contraste, seu mínimo foi alcançado em 2015, quando reduziu 10,5% em relação ao ano anterior” (Diário do Rio).

Situações de grandes catástrofes, como já apontamos em outro artigo sobre, tendem a aumentar a desigualdade e realçar a extrema pobreza, pois os recursos, não só materiais, são essenciais para conseguir se reinventar diante de um cenário tão desafiador.


Mas escrever sobre a extrema pobreza é radicalmente diferente de vivê-la. Não há teórico, escritor ou jornalista que poderia de fato mostrar a crueldade dessa situação a não ser vivendo-a. Por isso, a HAJA preferiu dar voz às pessoas que têm poder de falar para dizer o que na experiência delas significa viver em extrema pobreza.


“Estou grávida do meu terceiro filho, tenho 16 anos. Deixei meu parceiro porque ele é agressivo e bate. Agora preciso conseguir um cantinho para mim e meus filhos, pois não tenho nenhum apoio da minha família há muito tempo”.
“Eu sempre fui muito, muito pobre. Perdi um bebê porque não consegui chegar na maternidade a tempo, e um filho meu morreu por bala perdida. Ganho pouco, nem R$800,00 e pago aluguel”.
“Sem licença de maternidade, 24 h depois do parto já estava de volta no aterro para trabalhar”.
“Gravida do meu 7º filho, meu parceiro me colocou para fora de casa. Para onde poderia ir?”
"Tive que dar dois filhos meus quando bem pequenas. Mesmo trabalhando todos os dias não ganhava suficiente para alimentá-las".
"Meus filhos só comem se sabem que eu também tenho algo para comer. Se você oferecer algo para eles, ele vai pedir mais, só para trazer para mim. Todos em casa são assim".
"Eu lembro com 6, 7 anos eu ia para rua, para frente de mercado, de casa em casa pedindo comida. Eu passava muita fome. Morava com minha avó".

Muitas pessoas acreditam que ser pobre tem relação com a falta de mérito daquela pessoa em ter dinheiro, como se ela tivesse falhado em algum momento. Muito desse discurso é baseado em casos de superação de outras pessoas que estariam em situações “semelhantes”: "mas fulano se esforçou e conseguiu". Porém o que esse discurso desconhece é a visão contextual da economia, da construção social e dos efeitos psicossociais que percorrem gerações de famílias.


Em analogia, a pobreza é um tipo de teia pegajosa, você pode até se esforçar muito para sair, mas ela continua lhe puxando de volta. Então, as superações podem acontecer, claro e torcemos por elas e as incentivamos! Mas muitas vezes, você vai precisar de uma mão de fora para te ajudar ou vai precisar fazer sacrifícios extremos e de muita dor, realmente como um arrancar de pele. É o que essas falas nos mostram, o que é a dor de dar seus filhos, de estar de resguardo e ir trabalhar no meio do lixo, de escolher entre apanhar ou ter um teto, de ver crianças se tornando adultas antes da hora.


Há uma rede complexa para conseguir solucionar esse monumental problema da pobreza, mas o discurso de que se você é pobre é porque merece ou não fez por onde mudar a situação precisa urgentemente ser repensado. É o mesmo que dizer para uma pessoa com câncer que ela não merece tratamento, não merece que gastem dinheiro com ela, pois ela causou sua doença, logo ela precisa lidar com isso sozinha, ela merece. Soa cruel nesse exemplo, mas é o que quem vive em situações precárias está acostumado.


Ou seja, se reduz e transporta um problema histórico, econômico, social de nível mundial para a culpa é de um indivíduo, assim como a solução. Comumente se pensa: “Ah, mas a culpa é da mãe que está tendo mais filho nessa situação”, “A culpa é da falta de planejamento”, “Se quisesse trabalho conseguiria”. São gerações e gerações que nascem sem a noção de direitos básico, sem acesso a recursos psicológicos que sejam. Recursos internos que poderiam a ajudá-los a enxergar que eles não merecem não, que a culpa não é deles não, que eles valem o mesmo tanto de quem está no Leblon.


Parar de apontar os dedos do julgamento não depende de ninguém, só de você e já é um passo gigante para uma mudança, pois permite que você enxergue que poderia ser você ali se tivesse nascido em circunstâncias iguais, cria empatia e faz com que as soluções sejam coletiva ao invés de individuais.


Ajude a gente a diminuir o estigma da meritocracia encima da pobreza, fale mais sobre isso com seus amigos e familiares. E contribua com a HAJA em seus projetos de levar sobretudo acesso a ferramentas que ajudam no desagarrar dessa grande teia da extrema pobreza como educação infantil, saúde básica, autocuidado, olhar humano, criação de rede de mulheres, profissionalização, alimentação básica.


Venha conhecer e fazer parte. Está cada mais forte e urgente a missão de ajudar as famílias a saírem da extrema pobreza.

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